
Ás 06h48min. Acorda João atrasado para o trabalho, com a cabeça latejando intensamente, ao som do “estralo” de sua coluna, que adormeceu sobre o sofá da sala... E não dormiu lá por que quis e, sim por não conseguir chegar á sua própria cama, pois não conseguia ter controle das próprias pernas, que pareciam estar sedadas, assim como o resto de seus membros. João já se acostumara com tal sensação... A sensação que o álcool proporciona. Que seu Whisky preferido lhe profere diariamente, em cima do balcão sujo do bar na esquina de sua rua, no qual estava devendo uma boa quantia em dinheiro, e aumentava-a cada vez mais... Cada dia mais, tentando escapar da “divida” que tem com si mesmo, e ocasionalmente alimentando a divida com quem não devia possuir.
Ao rever as horas em que estava (6h57min), imediatamente veste-se com seu uniforme azul, põe em seus pés, seus velhos sapatos furados e fétidos. Abre a porta, joga o ar ao fundo de seus pulmões, expira suavemente... Olha pra frente e anda no ritmo de passos largos. Na pacata e banal vida de João, a pressa é o jeito mais usual de ir-se ao trabalho, para não perder o tal, e jogar ao chão sua própria moral (que já não é tão honrosa), diante de seu patrão, autoritário e exigente.
Já ás uns cinqüenta metros de seu apartamento, correndo em direção ao ponto de ônibus para não o perder, por ventura consegue pegar um deles, e segue seu rumo para o trabalho. Acende seu cigarro, e deixa-o queimar dentre os dedos, enquanto observa através da janela do ônibus: Tudo... Via tudo àquilo de forma incrível, e assustadora... Parecia enxergar tudo àquilo de forma diferente... Parecia enxergar sua vida diante do todo, átomo por átomo. Desce do ônibus, dá um único trago no resto do cigarro que sobrou, joga no chão (mesmo estando diante de um lixo, bem visível), e segue seu rumo para o trabalho. Pensando como nunca, questionando como nunca... Chegando perto da entrada da metalúrgica, seu local de trabalho, avista seu grande “amigo”, dono do bar na esquina de sua rua, e alguns outros rapazes o acompanhando, com um olhar... Um olhar... Acena ao amigo, vira-se e continua no seu percurso... Chegando próximo ao portão de entrada...
- Já é noite?! Oras, nem vi tempo passar, aliás, nem vi a própria vida passar... Não estou entendendo literalmente nada! Ou estou entendendo tudo... Não sei nem mais o que existe dentro de mim, não sinto nada por dentro... Nem por fora... O que será que houve?! Nunca fiquei tão bêbado dessa forma, oras...
As freqüências dos sons não se reproduzem mais aos ouvidos de João. Nada se enxerga mais, nada se pensa mais, nada se sente mais. Apenas um vazio... Tudo foi ficando tão frio... Tão escuro... Um sentimento que suas inúmeras doses não o proporcionaram. Nem elas, nem as seringas jogadas ao tapete da sala... Nem as pedras embaladas em saco plástico, escondidas dentro de uma caixa de sapato velha.
João enquanto vagava, empurrado por um “vento” frio, em plena escuridão...
-Oh Filho! Meu querido filho! (Chora a mãe de João...).
-Mãe?! Você?! É você mesmo?! (Se choca ao extremo a alma de João).
-João! Ò, João!
-Onde tu estás que não enxergo?!
-Nem procure enxergar. Pois não é possível. Nem escutar, só “sinta” tudo que irei te falar filho! Abra a porta de sua percepção!
-Fale mãe! Diga, estou apronto á escutar tudo que tu tiveres á me dizer!
(Num lapso de momento, a mãe de João parece desaparecer completamente).
-Mãe! Mãe! Ó, Mãe! Onde tu estás?
(E a alma de João pronunciou desesperadamente, inúmeras vezes a mesma palavra pra eternidade: Mãe. Gritos assim, só foram vistos no enterro da própria, em 22 de Julho de 1994).
João já nem tinha certeza da sua própria existência. Ele não se enxergava não se escutava... Mas sabia que estava ali. Uma situação indescritível. Um vazio profundo que se assimila com um buraco negro... Puxando, sugando, tudo que ainda parecia existir no interior do “suposto” corpo de João.
Uma forte luz vem. Fazendo João ver, e crer em algo que estava próximo. As lágrimas de sua alma eram tantas... Que crer em algo, seria o que chamam de milagre. Uma dádiva... (E a voz do espectro de sua mãe volta á falar).
-Mãe?! É você?! Mãe?
-Sim João, vem lhe dizer apenas uma coisa...
-Fale! Fale!
-É sua alma que está aqui.
-O quê?! Como assim?!
- “Você” está deitado sobre seu próprio sangue no chão da avenida, com transeuntes em estado de choque, contracenando em volta de seu corpo (que agora não passa de matéria). As pessoas gritam dos gritos agudos aos mais graves... Enquanto 3 homens encapuzados viram a esquina, correndo apressados, ao ouvir o som alto da sirene policial.
O corpo de João gritava intensamente pela sobrevivência, mas a bala alojada em seu cérebro não permite mais nada... Uma bala perdida, um tiro, de um perdido. E os gritos continuavam de fundo, enquanto o sangue jorrava por um orifício no seu crânio, lavando o chão com vermelho... Tudo foi ficando tão frio... Tão escuro... E assim como seus sonhos e pensamentos ínfimos, sua alma e sua vida foram retiradas de si.
-Mas Mãe...
-Fale filho! Diga o que ainda tiveres a dizer!
-E Deus?!
(Nesse momento a alma da mãe de João desaparece novamente, e toda a escuridão banhou sua alma...).
“Em apenas uma geração, de 1979 até o último semestre, o Brasil ultrapassou meio milhão de assassinatos, (...), de acordo com os Ministérios da Saúde e da Justiça.”
Ao rever as horas em que estava (6h57min), imediatamente veste-se com seu uniforme azul, põe em seus pés, seus velhos sapatos furados e fétidos. Abre a porta, joga o ar ao fundo de seus pulmões, expira suavemente... Olha pra frente e anda no ritmo de passos largos. Na pacata e banal vida de João, a pressa é o jeito mais usual de ir-se ao trabalho, para não perder o tal, e jogar ao chão sua própria moral (que já não é tão honrosa), diante de seu patrão, autoritário e exigente.
Já ás uns cinqüenta metros de seu apartamento, correndo em direção ao ponto de ônibus para não o perder, por ventura consegue pegar um deles, e segue seu rumo para o trabalho. Acende seu cigarro, e deixa-o queimar dentre os dedos, enquanto observa através da janela do ônibus: Tudo... Via tudo àquilo de forma incrível, e assustadora... Parecia enxergar tudo àquilo de forma diferente... Parecia enxergar sua vida diante do todo, átomo por átomo. Desce do ônibus, dá um único trago no resto do cigarro que sobrou, joga no chão (mesmo estando diante de um lixo, bem visível), e segue seu rumo para o trabalho. Pensando como nunca, questionando como nunca... Chegando perto da entrada da metalúrgica, seu local de trabalho, avista seu grande “amigo”, dono do bar na esquina de sua rua, e alguns outros rapazes o acompanhando, com um olhar... Um olhar... Acena ao amigo, vira-se e continua no seu percurso... Chegando próximo ao portão de entrada...
- Já é noite?! Oras, nem vi tempo passar, aliás, nem vi a própria vida passar... Não estou entendendo literalmente nada! Ou estou entendendo tudo... Não sei nem mais o que existe dentro de mim, não sinto nada por dentro... Nem por fora... O que será que houve?! Nunca fiquei tão bêbado dessa forma, oras...
As freqüências dos sons não se reproduzem mais aos ouvidos de João. Nada se enxerga mais, nada se pensa mais, nada se sente mais. Apenas um vazio... Tudo foi ficando tão frio... Tão escuro... Um sentimento que suas inúmeras doses não o proporcionaram. Nem elas, nem as seringas jogadas ao tapete da sala... Nem as pedras embaladas em saco plástico, escondidas dentro de uma caixa de sapato velha.
João enquanto vagava, empurrado por um “vento” frio, em plena escuridão...
-Oh Filho! Meu querido filho! (Chora a mãe de João...).
-Mãe?! Você?! É você mesmo?! (Se choca ao extremo a alma de João).
-João! Ò, João!
-Onde tu estás que não enxergo?!
-Nem procure enxergar. Pois não é possível. Nem escutar, só “sinta” tudo que irei te falar filho! Abra a porta de sua percepção!
-Fale mãe! Diga, estou apronto á escutar tudo que tu tiveres á me dizer!
(Num lapso de momento, a mãe de João parece desaparecer completamente).
-Mãe! Mãe! Ó, Mãe! Onde tu estás?
(E a alma de João pronunciou desesperadamente, inúmeras vezes a mesma palavra pra eternidade: Mãe. Gritos assim, só foram vistos no enterro da própria, em 22 de Julho de 1994).
João já nem tinha certeza da sua própria existência. Ele não se enxergava não se escutava... Mas sabia que estava ali. Uma situação indescritível. Um vazio profundo que se assimila com um buraco negro... Puxando, sugando, tudo que ainda parecia existir no interior do “suposto” corpo de João.
Uma forte luz vem. Fazendo João ver, e crer em algo que estava próximo. As lágrimas de sua alma eram tantas... Que crer em algo, seria o que chamam de milagre. Uma dádiva... (E a voz do espectro de sua mãe volta á falar).
-Mãe?! É você?! Mãe?
-Sim João, vem lhe dizer apenas uma coisa...
-Fale! Fale!
-É sua alma que está aqui.
-O quê?! Como assim?!
- “Você” está deitado sobre seu próprio sangue no chão da avenida, com transeuntes em estado de choque, contracenando em volta de seu corpo (que agora não passa de matéria). As pessoas gritam dos gritos agudos aos mais graves... Enquanto 3 homens encapuzados viram a esquina, correndo apressados, ao ouvir o som alto da sirene policial.
O corpo de João gritava intensamente pela sobrevivência, mas a bala alojada em seu cérebro não permite mais nada... Uma bala perdida, um tiro, de um perdido. E os gritos continuavam de fundo, enquanto o sangue jorrava por um orifício no seu crânio, lavando o chão com vermelho... Tudo foi ficando tão frio... Tão escuro... E assim como seus sonhos e pensamentos ínfimos, sua alma e sua vida foram retiradas de si.
-Mas Mãe...
-Fale filho! Diga o que ainda tiveres a dizer!
-E Deus?!
(Nesse momento a alma da mãe de João desaparece novamente, e toda a escuridão banhou sua alma...).
“Em apenas uma geração, de 1979 até o último semestre, o Brasil ultrapassou meio milhão de assassinatos, (...), de acordo com os Ministérios da Saúde e da Justiça.”



Um comentário:
Muito intenso cara... Surpreende um cara com sua idade escrever tratando de assuntos tão... Sublimes! Parabéns irmão! Vou lendo seu blog; gostei muito mesmo!
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