quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Poema do analfabeto.



Palavras e letras,
Letras por palavras,
Frases com palavras
Palavras e... (nada)...

“Pa, pa, passa, rri... não, não...”
“Ni, ni, o, no... não, não...”
“Ah, vou pular essa...”
“Quitá, quita, qui... Quê que isso?!”

“Que será que é isso aqui, ali, e acolá?”
“Hmm, e isso aqui, esse sinalzinho aqui...”.
“Encima das letras, dentre as palavras...”.
O que tudo pra ele... Ele, o analfabeto,
São apenas meras palavras (mortas)...


.

.

.

.

(Faço a dedicatória desse poema à Loueine, uma grande escritora e uma ótima leitora, a qual sempre acompanha minhas escritas ajudando a melhora-las cada vez mais.)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

E a vida?


Passos lentos murmurejam na calçada da praça...
Debaixo das luzes dos postes velhos, que me perfilam...
Dançando sobre poças de água, vou olhando o todo,
Esperando algo que nem eu mesmo sei qual...

Sentindo o fedor das palavras do fundo...
E o som da tal poluição que contracena...
Insipidamente, na grotesca rotina dos dias.
E os passos continuam pela calçada da praça....

Qualquer “coisa” ínfima é intróito,
Para meus insignificantes pensamentos...
Que intumescem no fundo do cérebro...
E a direção dos passos é esquecida.

E assim vai intumescendo... E os passos....
Seguem... Em direção a um banco no canto,
Se refugiando, isolando do eu mesmo. E...
Peido, sem medo do suposto odor ruim.

Olho a hora por acaso... A chuva majora, e vou...
Vou refazendo novamente os passos anteriores,
De volta para casa. E ainda pior do que saí...
E nesse momento eu me pergunto: E a vida?!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A hora de ir.






Ás 06h48min. Acorda João atrasado para o trabalho, com a cabeça latejando intensamente, ao som do “estralo” de sua coluna, que adormeceu sobre o sofá da sala... E não dormiu lá por que quis e, sim por não conseguir chegar á sua própria cama, pois não conseguia ter controle das próprias pernas, que pareciam estar sedadas, assim como o resto de seus membros. João já se acostumara com tal sensação... A sensação que o álcool proporciona. Que seu Whisky preferido lhe profere diariamente, em cima do balcão sujo do bar na esquina de sua rua, no qual estava devendo uma boa quantia em dinheiro, e aumentava-a cada vez mais... Cada dia mais, tentando escapar da “divida” que tem com si mesmo, e ocasionalmente alimentando a divida com quem não devia possuir.

Ao rever as horas em que estava (6h57min), imediatamente veste-se com seu uniforme azul, põe em seus pés, seus velhos sapatos furados e fétidos. Abre a porta, joga o ar ao fundo de seus pulmões, expira suavemente... Olha pra frente e anda no ritmo de passos largos. Na pacata e banal vida de João, a pressa é o jeito mais usual de ir-se ao trabalho, para não perder o tal, e jogar ao chão sua própria moral (que já não é tão honrosa), diante de seu patrão, autoritário e exigente.

Já ás uns cinqüenta metros de seu apartamento, correndo em direção ao ponto de ônibus para não o perder, por ventura consegue pegar um deles, e segue seu rumo para o trabalho. Acende seu cigarro, e deixa-o queimar dentre os dedos, enquanto observa através da janela do ônibus: Tudo... Via tudo àquilo de forma incrível, e assustadora... Parecia enxergar tudo àquilo de forma diferente... Parecia enxergar sua vida diante do todo, átomo por átomo. Desce do ônibus, dá um único trago no resto do cigarro que sobrou, joga no chão (mesmo estando diante de um lixo, bem visível), e segue seu rumo para o trabalho. Pensando como nunca, questionando como nunca... Chegando perto da entrada da metalúrgica, seu local de trabalho, avista seu grande “amigo”, dono do bar na esquina de sua rua, e alguns outros rapazes o acompanhando, com um olhar... Um olhar... Acena ao amigo, vira-se e continua no seu percurso... Chegando próximo ao portão de entrada...

- Já é noite?! Oras, nem vi tempo passar, aliás, nem vi a própria vida passar... Não estou entendendo literalmente nada! Ou estou entendendo tudo... Não sei nem mais o que existe dentro de mim, não sinto nada por dentro... Nem por fora... O que será que houve?! Nunca fiquei tão bêbado dessa forma, oras...

As freqüências dos sons não se reproduzem mais aos ouvidos de João. Nada se enxerga mais, nada se pensa mais, nada se sente mais. Apenas um vazio... Tudo foi ficando tão frio... Tão escuro... Um sentimento que suas inúmeras doses não o proporcionaram. Nem elas, nem as seringas jogadas ao tapete da sala... Nem as pedras embaladas em saco plástico, escondidas dentro de uma caixa de sapato velha.

João enquanto vagava, empurrado por um “vento” frio, em plena escuridão...
-Oh Filho! Meu querido filho! (Chora a mãe de João...).
-Mãe?! Você?! É você mesmo?! (Se choca ao extremo a alma de João).
-João! Ò, João!
-Onde tu estás que não enxergo?!
-Nem procure enxergar. Pois não é possível. Nem escutar, só “sinta” tudo que irei te falar filho! Abra a porta de sua percepção!
-Fale mãe! Diga, estou apronto á escutar tudo que tu tiveres á me dizer!
(Num lapso de momento, a mãe de João parece desaparecer completamente).
-Mãe! Mãe! Ó, Mãe! Onde tu estás?
(E a alma de João pronunciou desesperadamente, inúmeras vezes a mesma palavra pra eternidade: Mãe. Gritos assim, só foram vistos no enterro da própria, em 22 de Julho de 1994).

João já nem tinha certeza da sua própria existência. Ele não se enxergava não se escutava... Mas sabia que estava ali. Uma situação indescritível. Um vazio profundo que se assimila com um buraco negro... Puxando, sugando, tudo que ainda parecia existir no interior do “suposto” corpo de João.

Uma forte luz vem. Fazendo João ver, e crer em algo que estava próximo. As lágrimas de sua alma eram tantas... Que crer em algo, seria o que chamam de milagre. Uma dádiva... (E a voz do espectro de sua mãe volta á falar).

-Mãe?! É você?! Mãe?
-Sim João, vem lhe dizer apenas uma coisa...
-Fale! Fale!
-É sua alma que está aqui.
-O quê?! Como assim?!
- “Você” está deitado sobre seu próprio sangue no chão da avenida, com transeuntes em estado de choque, contracenando em volta de seu corpo (que agora não passa de matéria). As pessoas gritam dos gritos agudos aos mais graves... Enquanto 3 homens encapuzados viram a esquina, correndo apressados, ao ouvir o som alto da sirene policial.

O corpo de João gritava intensamente pela sobrevivência, mas a bala alojada em seu cérebro não permite mais nada... Uma bala perdida, um tiro, de um perdido. E os gritos continuavam de fundo, enquanto o sangue jorrava por um orifício no seu crânio, lavando o chão com vermelho... Tudo foi ficando tão frio... Tão escuro... E assim como seus sonhos e pensamentos ínfimos, sua alma e sua vida foram retiradas de si.

-Mas Mãe...
-Fale filho! Diga o que ainda tiveres a dizer!
-E Deus?!
(Nesse momento a alma da mãe de João desaparece novamente, e toda a escuridão banhou sua alma...).


“Em apenas uma geração, de 1979 até o último semestre, o Brasil ultrapassou meio milhão de assassinatos, (...), de acordo com os Ministérios da Saúde e da Justiça.”

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Século XXI

Século XXI

Bem-vindo, ao século vinte e um...
Tempos tortuosos de implosão,
De seres-humanos sediciosos...
Tempos de questionamentos, lamentação...
Um pé na ignorância, outro na ambição.

Ó, tempos banais e ignóbeis...
Ora aquecimento global,
Outrora aquecimento mental.
Tempos de catástrofes ambientais,
Outros de catástrofes morais.

O homem decapitando imperceptivelmente,
Sua própria cabeça. Tirando o próprio ar,
Mastigando, bebendo, e respirando veneno.
Esmagando a vida na própria mão.
Viver, morrendo. Atos em vão.

Bem-vindos, ao novo jeito de viver!
Homens derivando das drogas, a alegria pérfida.
Derivando da boca, infames palavras.
E ocasionalmente... Comicamente...
Derivando da mente o próprio fim.

Enfim, eis aí o século XXI.
Em mãos, uma “arma”. Em mente, “nada”.
Meus complexos versos são insignificantes,
No meio de toda a abstrata imensidão.
Imensidão... De podridão.




Rafael Pires, 2/12/2008
O vazio.

Na profundidade do pensamento
O vazio fala-nos sussurrando
A questão do universo chama-nos intensamente.
Dúvidas cercam a mente...
Hermeticamente, completamente, completa a mente...

Na imensidão do todo...
Vagam nossos pensamentos, preces, questionamentos...
A silenciosa voz do pensamento...
Grita ativamente, ativa a mente, intensamente.
Morreremos como matérias, ou viveremos eternamente?

Se o crer fosse o saber...
Se as estrelas pudéssemos ler
O pensamento infinito nasceria
E saberíamos o que ser e o que não ser.

A inquietude da alma perante o infinito
O céu derramado sobre o mundo.
O mundo derramado sobre o chão.
Palavras e palavras versejadas,
São apenas mais um pensamento em vão.

Rafael Pires, 30/10/2008

Eu não tenho eu. - 1° poema.

Eu não tenho eu

Ninguém...
Ninguém tem o controle de si próprio...
Nem mesmo eu também...
Você e eu,somos mais um em busca do óbvio
Uma futilidade. Apenas procurando na vida um “porém”.

Apenas eu...
Eu,tentando ter controle...
Do meu próprio ego.
Um ato falho , dispensável.
Assim como ser amável.

Você e eu também...
Vivemos como um trem...
Indo ao fim de um caminho , e voltando ao início...
Sem saída, estamos na beira de um precipício.
Qualquer pensamento é ilícito.

Expressões falsas...
Em todos os rostos.
Mentiras , verdades , sábios , loucos.
Ninguém conhece a si próprio , penso assim.
Assim como eu mesmo não tenho a mim.


Rafael Pires 12/09/2008