segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Sem título.

(O texo aqui postado, não é de minha autoria, é de um grande amigo meu, Mário João. E já deixando claro: Apesar dos preconceitos e da ignorância brasileira, é um usuário de maconha e defende a posição dela contra a ilegalização. Mas acima disso, possui os memos sentimentos que eu... Os quais são expostos no seguinte "conto", que narra um fato real. )


Certo dia, fui comprar “planta” numa “floricultura”, localizada no centro da cidade, e o que senti lá dentro, não foi o que eu aguardava antes de entrar. Entrei, após cumprimentar alguns jovens marginais e provavelmente usuários de pedra que estavam sentados à porta. Logo ao entrar, vi o vendedor: Velho, negro, sucumbido, acabado, deitado no sofá. Parecia um morto, mais vivo... Literalmente indescritível. Mal conseguia mexer seus braços e mal conseguia falar, (por estar sem “crack”, ou por estar sob o efeito dele.). Cumprimentou-me, e falou para mim e para os amigos que me acompanhavam que estava sem a “planta”, pois estava um pouco difícil, ele estava internado num hospital devido à alguns “problemas” de saúde. Enquanto ele falava com dificuldade e quase morrendo, eu estava com um mal-estar horrível, talvez pelo cheiro de urina e fezes que estava lá dentro, ou apenas pelo simples fato de estar lá dentro. Ao ver duas crianças que entravam no local, eu me assustei, e sozinho deduzi que eram filhos do velho... Duas crianças, com uma vida pela frente, num ambiente fétido, num ambiente "pesado", num ambiente onde as drogas correm o tempo todo, e num ambiente onde seus pais e parentes entopem o sangue de drogas pesadíssimas na rotina de suas vidas.

Eu comecei a tocar a flauta que estava em minha mão, sem a permissão de qualquer pessoa que estava no local. Por ventura, como eu esperava e desejava, o sorriso das duas pequenas crianças se abriram aos poucos, com os olhos presos em mim, e os ouvidos atentos à melodia. Eles realmente sorriram alegres, mostrando os dentes da boca, e seus olhos brilhavam naquele momento... O sorriso deles não é perpétuo. Mas na minha mente, é... E continuará sendo.

Agarrei os dois pelo braço, e saí correndo pelas ruas, para bem longe daquela podridão, longe daqueles crápulas viciados, daqueles marginais, daqueles perdidos. Cuidarei deles durante o resto da minha fútil vida, para que virem médicos, advogados, ou para que tenham simples empregos, mas tenham uma boa vida, e para que sejam boas pessoas...

Após imaginar esse ato inusitado, voltei à vida real, e fiquei olhando para tudo o que tinha ao meu redor: Paredes caindo, sofás velhos, rasgados e urinados, um velho viciado, rapazes marginais que não esperavam nada da vida, e a vida não esperava nada deles... Até um "cego" choraria diante disso. A minha própria alma lacrimejava... E eu não podia fazer nada pra reverter esse quadro. Só posso viver minha vida fétida, enquanto aquelas duas crianças (como milhões de outras crianças) viram marginais, ladrões, viciados, e morrerão futuramente por ser assim, e por viver assim. Só intumesce minha dor pensar que, essas duas crianças, são apenas mais duas, no meio de tantas outras, na mesma situação, ou ainda muito pior.

Geralmente perguntam-me: "Por que você está aparentemente triste?", "Você tem ‘tudo’, e por que afirma que não é feliz?", "Por que você vive nessa depressão pérfida e desnecessária?". A resposta direta se encontra indiretamente nesse texto, e nos poemas que escrevo. Mas enfim, vamos viver nossas vidas, ora! Dormir em nossas camas, acordar, almoçar, jantar, viver nossos dias dessa vida banal, todos cegos e felizes! Enquanto o mundo se explode e se afunda ao nosso redor...

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